O Foodservice brasileiro diante do mundo: contexto, coragem e hospitalidade
- Simone Galante
- 26 de mai.
- 6 min de leitura
Por Simone Galante
Durante o The Restaurant Show 2026, em Chicago, tive a oportunidade de conversar com Tom Cindric, da Informa, sobre o Brasil, a delegação da GALUNION e as grandes transformações que estamos vivendo no foodservice. Como acontece nas boas conversas, a entrevista seguiu seu próprio caminho.

Nem tudo ficou preso às perguntas previstas, e talvez por isso a troca tenha sido ainda mais rica: quando existe escuta real, as ideias encontram novas conexões e revelam nuances que um roteiro nem sempre antecipa.
Saí dessa conversa com uma convicção ainda mais forte: o foodservice brasileiro tem muito a aprender com o mundo, mas também tem muito a dizer ao mundo.
Nos últimos 15 anos, tenho sido uma frequentadora assídua do The Restaurant Show. Mais do que visitar a feira, tenho abraçado as oportunidades de troca de conhecimento, geração de insights e construção de relacionamentos que um encontro dessa dimensão proporciona. Ao olhar para essa trajetória, vejo o quanto evoluímos como mercado, como operadores, como fornecedores, como líderes e como ecossistema.
O que o Brasil aprende com o mundo e o que o mundo pode aprender com o Brasil
Ainda hoje, desembarcar no McCormick Place provoca em mim sentimentos misturados. Quando falamos de tecnologia, muitas vezes a distância entre o que vemos nos Estados Unidos e o que conseguimos aplicar imediatamente no Brasil continua evidente. Algumas soluções funcionam como inspiração, outras como meta, outras como provocação. Muitas exigem infraestrutura, maturidade operacional, integração de sistemas, dados organizados e disciplina de gestão para que façam sentido. Ter esse senso crítico é essencial. Nem tudo que vemos funcionando em Chicago “daria play” no Brasil do mesmo jeito.
Ao mesmo tempo, quando falamos de hospitalidade, culinária, criatividade e capacidade de adaptação, vejo uma força brasileira que merece ser mais iluminada. O calor humano, o sorriso no rosto, a reinvenção constante e a habilidade de fazer muito com pouco fazem parte do nosso DNA. Inspiramos o mundo em sabor, acolhimento e criatividade, enquanto somos provocados em consistência operacional, produtividade e escala. É nessa combinação, às vezes desconfortável e muitas vezes fértil, que o Brasil pode inovar de um jeito muito próprio.
Um setor pressionado por transformações
Nosso foodservice vive agora um ciclo especialmente desafiador. Ainda temos vetores positivos de volume, como o turismo, que cria novas ocasiões de consumo, e o delivery, que se consolidou como uma camada estrutural do consumo no país. Mas volume, sozinho, já não sustenta a complexidade das decisões que precisam ser tomadas.
Os operadores lidam com pressão de custos, cadeias globais de suprimentos mais instáveis, reforma tributária, trabalho híbrido, avanço das refeições feitas em casa, novos impactos trazidos por medicamentos como GLP-1 e uma carteira do consumidor cada vez mais disputada por diferentes frentes de consumo, inclusive apostas e bets.
A força de trabalho também aparece como uma das maiores preocupações. Em nossas pesquisas, 67% dos operadores apontam pessoas como seu principal desafio, especialmente nos temas de atração, retenção, treinamento e produtividade.
Tudo isso muda a forma de crescer e sustentar lucratividade.
Crescer exige equilíbrio entre volume, margem e relevância
Crescer agora exige mais disciplina, mais clareza e mais capacidade de escolha. Na nossa tese GALUNION para 2026, os operadores precisarão combinar tecnologia, disciplina na cadeia de suprimentos e adaptação do mix de menu para equilibrar três dimensões essenciais: volume, margem e relevância.
Essa equação parece simples quando colocada no papel, mas é profundamente exigente na prática. Proteger margem sem perder desejo. Ganhar produtividade sem empobrecer a experiência. Usar tecnologia sem esfriar a relação. Adaptar o menu sem diluir identidade. Manter relevância em um consumidor que muda rápido, compara muito, decide com mais critério e espera ser reconhecido em sua individualidade.
Por isso, acredito que uma das grandes questões para o foodservice está na capacidade de interpretar. Informação todos nós temos em excesso.
A dificuldade está em separar sinal de ruído, tendência de modismo, inspiração de prioridade.
Uma tendência que nasce na Coreia, ganha força nos Estados Unidos e chega ao Brasil pelo celular pode parecer distante em um primeiro momento. Um ingrediente incomum, uma embalagem diferente, um equipamento novo ou uma prática operacional aparentemente simples podem carregar uma lógica de negócio que só aparece quando entendemos o que existe por trás.
Lembro sempre de uma história antiga da Arby’s no Brasil. Há mais de duas décadas, a marca usava um tipo de copo para milk-shake e outro para refrigerante. A primeira sugestão do time brasileiro foi simplificar e usar apenas um modelo para tudo. Parecia uma decisão óbvia de eficiência. Mas a resposta mostrava outra camada: por trás daquele copo havia uma forma de controlar CMV e medir com mais precisão o número de itens vendidos, em uma época de digitalização ainda incipiente. O que parecia complexidade era, na verdade, inteligência operacional.
Sem essa leitura, a informação se perde.
O que uma missão técnica realmente entrega
Esse é um dos grandes aprendizados de uma missão técnica bem construída. Quando um líder brasileiro conversa com um americano, um coreano, um europeu ou outro brasileiro que enfrenta desafios parecidos, ele começa a perceber nuances. Entende por que uma ideia faz sentido em determinado mercado e talvez não “pegue” em outro. Enxerga que uma tecnologia sozinha não resolve o que depende de processo, cultura, treinamento e proposta de valor. Percebe que um equipamento só se conecta ao negócio quando melhora produtividade, consistência, qualidade ou experiência.
Por isso, programas internacionais como a Missão GALUNION Rocket The Restaurant Show são relevantes para quem quer liderar a transformação com mais consciência. A feira é enorme. São milhares de produtos, tecnologias, fornecedores, equipamentos, alimentos, bebidas, palestras e conversas acontecendo ao mesmo tempo. O valor real está em saber interpretar. O que merece atenção? O que pode ser adaptado? O que deve ser testado? O que gera valor para o consumidor e para o negócio brasileiro?

Na GALUNION, nosso papel é transformar informação em inteligência, e inteligência em melhores decisões. Fazemos isso a partir de três movimentos fundamentais:
Curadoria para ajudar líderes a olharem para o que realmente importa.
Conexão para aproximar pessoas que estão construindo o futuro do setor.
Tradução para adaptar referências globais à nossa realidade, considerando consumidores, operadores, custos, infraestrutura, cultura e momento de mercado.
Uma missão como essa precisa entregar mais do que inspiração. Ela precisa ajudar líderes a voltarem para casa com perguntas melhores, prioridades mais claras e coragem para agir.
Coragem para evoluir sem perder a humanidade
Coragem para reconhecer que algumas respostas antigas perderam força. Coragem para testar novos caminhos. Coragem para usar tecnologia com inteligência e manter a humanidade no centro. Coragem para olhar para o Brasil com mais orgulho, mais responsabilidade e mais ambição.
Temos uma combinação muito poderosa. Diversidade cultural, riqueza alimentar, base agrícola, biodiversidade, ingredientes únicos, criatividade e hospitalidade. Também avançamos muito em tecnologia, especialmente em delivery, pagamentos digitais, prevenção de fraude, fidelidade, relacionamento com consumidores e soluções omnichannel. Ainda convivemos com lacunas de infraestrutura e desafios econômicos e sociais importantes, mas essa realidade também formou operadores resilientes, criativos e altamente adaptáveis.
Essa combinação pode inspirar outros mercados.
Quando falo sobre o futuro do foodservice, volto sempre à relação entre tecnologia e toque humano. A tecnologia melhora a operação, aumenta produtividade, reduz fricções, organiza dados, apoia decisões e ajuda a gerenciar custos. Vira infraestrutura. O toque humano dá sentido à experiência, cria vínculo, acolhe, emociona e faz as pessoas se sentirem melhor.
As pessoas querem mais do que transações. Querem ser compreendidas, reconhecidas e valorizadas. As melhores empresas de foodservice serão aquelas que conseguirem usar tecnologia para tornar o negócio mais inteligente e experiência para tornar a relação mais humana, mais conexão de verdade.

Foi isso que vi em Chicago: no pavilhão da feira, nas visitas técnicas, nas conversas com líderes americanos, nas trocas com a delegação brasileira, nos almoços, nos deslocamentos e nas perguntas feitas ao fim do dia, quando todos começavam a organizar o que tinham visto. A aprendizagem acontece antes, durante e depois da feira. Acontece quando um operador olha para uma solução global e pergunta como aquilo funcionaria em seu negócio. Acontece quando um fornecedor percebe que sua proposta de valor precisa dialogar melhor com as dores reais dos clientes. Acontece quando um grupo de líderes compara realidades, desafia premissas e começa a imaginar o que pode ser adaptado, testado ou criado no Brasil.
É por isso que a Missão GALUNION sempre volta para três palavras que carregam muito da nossa essência: conexão, conversação e coragem.
Conexão que alimenta. Conversação que transforma. Coragem que move.
Acredito profundamente que o foodservice cresce quando essas forças se encontram com inteligência. E acredito também que o Brasil precisa ocupar com mais clareza seu lugar nessa conversa global, com humildade para aprender, abertura para colaborar e confiança para compartilhar o que já sabemos fazer muito bem.
O futuro do foodservice será construído por quem conseguir unir disciplina e sensibilidade, dados e escuta, eficiência e hospitalidade, tecnologia e presença humana.
Esse é o caminho que me inspira. Esse é o caminho que quero seguir ajudando a construir com a GALUNION.
